l4f480de000a3cNão existe talvez uma autoridade maior no assunto de sexualidade dentro de um relacionamento estável do que a psicoterapeuta belga Esther Perel. Tendo atendido milhares de casais que a procuravam para sanar o declínio do fervor sexual com o tempo, ela pôde coletar informações preciosas de tudo o que acontece ou não acontece nessas relações. Dessa experiência toda e de seu constante estudo sobre o assunto surge o livro Sexo no Cativeiro: Inteligência Erótica, uma bíblia para quem quer ter uma vida sexual interessante permanente com uma mesma pessoa.

Nos relacionamentos duradouros, frequentemente esperamos que nossos amados sejam nosso melhor amigo e parceiro erótico. Porém como Esther Perel argumenta, o bom e comprometido sexo baseia-se em duas necessidades conflitantes: nossa necessidade por segurança e nossa necessidade por surpresa. Então como manter o desejo? Com inteligência e eloquência, Perel nos leva ao mistério da inteligência erótica. (veja a palestra de Esther no TED clicando no Play na foto de capa acima).

Aqui coloco minhas reflexões sobre  livro. Tudo que Esther disse foi maculado pela minha intromissão promíscua, conciliando a filosofia do site Sexo Criativo com a sabedoria dela…

Qual é o seu Q.I.E.? Quociente de Inteligência Erótica? Vamos aumentar esse número?

A vida em família floresce numa atmosfera de conforto e consistência. Porém o erotismo reside em imprevisibilidade, espontaneidade e risco. Eros é uma força que não gosta de ser restringida. Quando se assenta em repetição, hábitos e regras, entra em contato com sua morte. É transformado então em tédio e por vezes, mais fortemente, em repulsa. Sexo, o portador da perda de controle, é abastecido com incerteza e vulnerabilidade. Mas quando os filhos aparecem em cena, nossa tolerância por essas emoções desestabilizadoras some. Talvez seja por isso que ficamos relegados tão frequentemente à periferia da vida familiar. Onde o erotismo prospera, a vida em família se defende contra.

Muitos de nós lamentamos o declínio da paixão erótica com melancolia, um silencioso luto que se estabelece para sempre na relação. Ter um plano para manter a vitalidade erótica como princípio organizador de nossa vida não é uma coisa que existe em nossa agenda de tarefas. Nem consta na lista de objetivos que existem para se batalhar. Parece ser algo que acontece ou não, que quando some não há o que se fazer. Como todas as coisas da vida, é preciso inteligência, criatividade e ação. Não é algo que vem de bandeja pra você. É preciso correr atrás! Ai Jesus, mais uma coisa? Sim, mais uma… Mas só se você quer ter uma vida estimulante e divertida com seu amor. Se quiser ser só mãe e pai ok, não se preocupem em lutar por isso.

O legado do puritanismo localiza a família no centro da sociedade, espera que o casamento seja racional, sóbrio e produtivo. Você trabalha, você economiza e você planeja. Você se compromete seriamente com isso. Mas junto com toda essa noção de responsabilidade individual e moderação existe toda uma vontade em se buscar liberdade individual. Nós acreditamos na realização pessoal. Vivemos, portanto, na intersecção dessa ambivalência, entre puritanismo e hedonismo, comprometimento com a vida familiar e desejo por satisfação e prazer. Aí é onde precisamos negociar com perspicácia para não extinguir um lado em prol do outro. A mãe e a puta? Somos as duas… Mas crianças foram santificadas em nossa sociedade e abandonar totalmente a vida erótica por elas parece ser a coisa mais nobre a se fazer. Tudo é para as crianças. Nascem aí casais afogados numa austeridade sexual, vivendo uma estagnação erótica… Não existe mais busca por emoção, mas só por conforto, proteção, segurança. Eros foi expulso de casa.

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Eis aí o desafio. Trazer para casa, para nossa intimidade sexual, o erótico, ao invés de ter que fazer algo escondido por aí, mentir para nosso parceiro como é tão comum. As pessoas fazem isso porque não aguentam mais o cotidiano, o familiar. É um desespero em alimentar nosso lado que quer excitação, risco… É Eros no comando.

Como é trazer Eros pra casa? Para começar, ter uma intimidade erótica com nosso companheiro, que significa revelar todas as nossas memórias, desejos, medos, expectativas e lutas dentro de um relacionamento sexual. Quando os nossos mais profundos desejos são revelados e são recebidos pelo nosso amor com aceitação e validação, a vergonha se dissolve. É uma profunda experiência de empoderamento e auto-afirmação para o coração, o corpo e a alma. Quando podemos estar presentes tanto no amor quanto no sexo, nós transcendemos o campo de batalha do puritanismo e do hedonismo.

A fome por expressão total na dimensão erótica não é suja, errada ou contra nosso relacionamento. Ela pode ser nossa aliada, ou muito mais que isso, justamente aquilo que faz brilhar e se perpetuar o desejo dentro da relação. Saber que você sente desejos por outros corpos pode trazer de volta o sentimento de estranheza tão necessário para a vida erótica. De que o outro é outro realmente. É aí que entra a criatividade sexual, a ousadia de fazer coisas “erradas”. Mas que tal fazermos coisas erradas juntos? Que tal ver meu marido comendo outra? Minha esposa fazendo uma dupla penetração? Saber que isso pode me dar tesão e não medo de abandono é a suprema liberdade de trazer Eros para casa.

Amor e desejo não são a mesma coisa. Aconchegante não é a mesma coisa que sexy. Segurança não produz erotismo. Sua esposa sabe que você a ama. Mas ela quer sentir-se desejada por você. Ela quer conhecer sua fome, saborear os sabores delicados do seu desejo, e ver se casam com os dela. Não saber se render aos prazeres eróticos e ser passivo demais é irritante para ela. E quando você a vê apenas como um conforto emocional a coisa pega… (ou melhor, não pega).

Em seu livro Arousal, Michael Bader conecta a ideia de egoísmo ao conceito de brutalidade ou rudeza sexual, “uma qualidade de desejo que permite a pessoa se render com força total aos seus próprio ritmos de prazer e excitação sem culpa, preocupação ou vergonha de nenhum tipo”. Depois que alguém vira a mãe dos nossos filhos, a rudeza vira um respeito exagerado que também elimina o tesão.

Muitas vezes o que vai contra o erótico é justamente a intimidade. Sexo sem compromisso, pornografia e anonimato e tudo aquilo que evita o fardo da intimidade torna o excitamento possível novamente. Falando em termos mais rudes, intimidade demais, familiaridade demais faz com que nosso companheiro comece a parecer mais nossa própria mão que nos acaricia no sexo do que alguém realmente de fora. É bom, mas tão bom quanto uma masturbação, nada além disso. Aquele toque que arrepia até o fundo da alma e da cavidade vaginal só vem de algo alienígena, desconhecido, realmente de fora.

A crueza de nosso desejo pode ser rude, bestial e totalmente não envolvida emocionalmente com o objeto de desejo. Eros é predador, uma pegada voraz. É intensificado pela indecência, pelo abandono da razão.

O que alimenta o desejo é o desconhecido, é o que produz ansiedade. A outrosidade…

Mais intimidade, menos sexo. Amor procura proximidade, mas desejo precisa de distância… Ironicamente aquilo que traz uma boa intimidade não produz sexo bom.

Em sua experiência como terapeuta Esther afirma que o acréscimo de intimidade emocional é frequentemente acompanhado de um decréscimo de desejo sexual. É uma correlação inversa.

A quebra do desejo sexual parece ser uma não intencional consequência da criação de uma intimidade. Muitos são o que dizem “nós nos amamos profundamente, mas não temos mais sexo”. Justamente é o amor que está no caminho, derrotando o desejo.

Nossa procura por estabilidade e controle se choca com nosso desejo por imprevisibilidade e emoção.

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Essa frase parece óbvia, mas é a mais profunda sobre relações:

Separação é a precondição de conexão.

É dito muito apressadamente que os problemas dentro de um relacionamento são devido a uma falta de proximidade. Mas quando intimidade colapsa em fusão, não é a falta de proximidade que impede o desejo, mas justamente o excesso.

Esse é o paradoxo da intimidade e o sexo. Quando imersão demais acontece um no outro, não existe mais uma ponte para se andar, alguém para visitar do outro lado. Quando duas pessoas se fundem – quando dois viram um – não é possível mais acontecer a conexão. Não existe alguém para se conectar.

No começo do relacionamento podemos nos focar na conexão porque a distância psicológica já está lá; a outrosidade é um fato. Você não precisa cultivar a separatividade nos estágios iniciais de se apaixonar; você ainda é separada. Mas depois do acontecimento da intimidade total, é preciso aprender a manter uma outrosidade do companheiro, para que a possibilidade de conexão permaneça.

Cultivar desejos estrangeiros e indecência dentro de casa, faz com que tenhamos o melhor dos dois mundos: segurança, carinho e cumplicidade aliadas a aventura, risco e excitação permanente. Que tal?

Cultivar desejos estrangeiros e indecência dentro de casa, faz com que tenhamos o melhor dos dois mundos: segurança, carinho e cumplicidade aliadas a aventura, risco e excitação permanente. Que tal?

 

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About The Author

Sou um cara que ama criatividade em todos os setores da vida, principalmente no sexo. Sempre pronto pra inventar e experimentar coisas inusitadas, quebrar padrões e expandir a realidade. Tudo junto do amor da minha vida, porque só assim que tem graça.

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