Scarlett Johansson Under the Skin

 

Um sentimento de desconforto, uma certa opressão aos sentidos, uma realidade impressionante que demora para sair de dentro de nós.

“Sob a Pele” é mais uma experiência do que um filme… é muito mais sentir-se literalmente embaixo de outra pele do que ser um passivo espectador… se você se deixar levar, vai habitar por uma hora e meia numa catarse sensorial que, tenho certeza, nunca  antes experimentou.

A “história” gira entorno de uma alienígena que veio sentir nosso planeta não de fora, mas por dentro… ao invés de observar e estudar de longe nosso comportamento, eles entram na nossa pele. Escrevi história entre aspas porque desde já aconselho a quem vá ver o filme que não espere uma… a proposta é outra.

O filósofo americano Thomas Nagel em seu livro “Como é ser um Morcego”, demonstra que é impossível, por mais que se estude, saber o que é estar numa outra espécie de existência… a consciência do morcego jamais nos será revelada com os métodos que temos ao nosso dispor… Estamos fadados a não saber o que é ser um, mas apenas observar, de fora,  características mais triviais que não somam em nada em sentir-se “sob a pele”.

A arte é talvez o recurso mais avançado que a humanidade tem de poder experimentar  estar em outro corpo, em olhar com outro olhar… E é desse jeito que devemos “entrar” nesse filme… sob a pele…Assim como o alienígena protagonista possui esse recurso de não só observar de fora, mas por dentro,  nós temos  o cinema para tentar isso, especialmente esse filme,  que tenta não contar, mas nos fazer estar em outro ser, sentir o que ele sente, pensar com sua mente…

Não há nada aqui que sirva para o intelecto, os diálogos são mínimos e quase desnecessários.. a história linear com desencadeamentos lógicos não existe. Mas um turbilhão infinito de sensações esquisitas que nunca experimentamos antes afloram a todo momento… chegamos a franzir a testa  inconscientemente, expressando um desgosto com o que presenciamos, mas daquele tipo que nos faz querer mais. São estímulos novos e bizarros, assim como está tendo a protagonista alienígena, pela primeira vez em nosso planeta, em nosso corpo….

E o que deixa essa experiência ainda mais esquisita e também paradoxalmente desejável, é que Scarlett Johansson (que interpreta essa alienígena) é extremamente atraente… seu rosto e suas cenas de nudez, sentindo o corpo que não é seu, dão um tesão que incomoda, que não deveria estar ali, mas que se mescla como  mais um dos fenómenos provocados pelas imagens em nós… belo e grotesco são fundidos como uma expressão orgânica rude desprovida de linguagem racional… um espelho da vida?

A única evolução na historia que sentimos é a passagem que essa entidade alienígena faz de fria observadora a alguém que sente uma empática compaixão com os seres que cruza em seu caminho.

Ela encontra de tudo… sente a dor humana, a maldade, o medo, o tédio…

Vendo suas reações, somos levados a observar a nos mesmos com olhos de fora, toda loucura de nossa existência… Ao mesmo tempo que o filme nos impõe monstruosidades nunca vistas ou sentidas, experimentamos nosso próprio “normal” como bizarro, pois para ela é assim…

Depois da primeira vez que experimenta o sexo com penetração, ela olha assustada para a vagina em seu corpo com a sensação de que algo absurdo aconteceu.

No final, um humano hediondo que a tentou estuprar taca fogo nela, após ver sua pele rasgar, revelando que não é humana por dentro…O fogo que a queima faz subir uma melancólica fumaça, um nada etérico e sem peso  que o corpo vai se tornando,  tão rapidamente decomposto, tão facilmente extinto pelas chamas, todo um universo orgânico em cinzas ao vento…como somos frágeis! Sentimos um vazio descomunal vendo isso…

Não há poesia, eufemismo, ou distração… apenas a experiência crua e muitas vezes nua…

A pergunta que fica nessa fumaça do final que sobe ausente de significado ou emoção é: afinal o que somos nós? Nós mesmos, humanos, estamos sempre atónitos e amedrontados de estar sem saber porque embaixo dessa pele e constituído dessas vísceras, que  ao mesmo tempo nos são tão familiares, mas também tão abjetas e alienígenas. Estar “sob a pele”, por fim, não nos trás uma compreensão completa de nada…

 Somos esquisitos para nós mesmos… observamos a tudo por vezes com os olhos desesperados  de estarmos  aprisionados num mundo que jamais será totalmente familiar, amistoso ou nossa casa…ou que faça um mínimo sentido.

Viver é sensualmente pavoroso… e pavorosamente sensual…

Simbolicamente esta tudo contido nessa Scarlett alienígena… a beleza por fora, o medo inescrutável por dentro… Sem a superfície banal, quem somos?

Escrever sobre esse filme é portanto ridículo, pois ele mesmo não quer falar, mas apenas ser… não há o que dizer ou filosofar… só nos resta sentir e não entender.

About The Author

Sou um cara que ama criatividade em todos os setores da vida, principalmente no sexo. Sempre pronto pra inventar e experimentar coisas inusitadas, quebrar padrões e expandir a realidade. Tudo junto do amor da minha vida, porque só assim que tem graça.

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